Evitando Colisões no Céu

Com tantas áreas de saltos para paraquedismo se tornando populares, nossa chance de colisão no céu, seja em queda livre ou na navegação aumentou significativamente. Phil Webley discute como podemos gerenciar de forma eficaz o espaço em nossos céus para evitar colisões.

Neste artigo, discutiremos os requisitos de segurança de várias modalidades dentro do paraquedismo e como elas podem ser realizadas com segurança como parte de uma operação normal de DZ.

Curt Bartholomew certa vez disse que o lado negativo do paraquedismo é que você precisa confiar que outras pessoas não vão te matar. Hoje temos muitas modalidades no paraquedismo, cada uma com suas próprias necessidades e características. Todos querem praticar sua modalidade sem entrar em conflito com as demais. A capacidade das aeronaves no nosso esporte é maior do que nunca, o que significa que rotineiramente temos um espaço aéreo mais congestionado. Além disso, todos precisamos pousar na mesma área de pousoe gerenciar o tráfego até chegar lá.

Neste artigo, várias modalidades serão discutidas:

  • Pousos de alta performance (swoop)
  • O debate sobre se grupos de freefly ou de trabalho relativo (belly) devem sair primeiro
  • Tracking e desloc
  • Freefly solo ou saltos com coach
  • Modalidades que envolvem abertura do velame em grandes altitudes, como flocking, high pulls e TRV

1. POUSOS DE ALTA PERFORMANCE

Os principais pontos que quero levantar para quem não está familiarizado com pousos de alta performance são: a curva final é maior que 90°, as razões de descida antes do pouso são incomumente altas e, quando os pilotos realizam essas manobras, às vezes ficam cegos para outros paraquedistas.

As manobras mais comuns são curvas de 270° na aproximação final e curvas de 450°. Curvas com giros ainda maiores também são possíveis. As altitudes podem variar de 600 a 1.500 pés, onde os pilotos atingem uma razão de descida vertical em torno de 100 a 130 kmh ou mais! A área utilizada pode ser estimada em cerca de 100m x 100m.

curva de 270 graus
curva de 450 graus

Áreas de Pouso de Alta Performance (HPLA)

A criação das áreas de pouso de alta performance no Reino Unido (ou “áreas de swoop” em outros lugares) foi um grande avanço para separar pousos regulares de pousos de alta performance. Isso ajudou a separar os pousos no espaço e no tempo, reduzindo problemas de tráfego. Embora isso seja geralmente uma ótima iniciativa das DZs, cada uma enfrenta suas próprias limitações de espaço e precisa trabalhar com o que tem. Algumas HPLA (High Perfomance Landing Area) são pequenas, exigindo um piloto relativamente experiente para pousar com segurança dentro delas. Isso pode colocar pilotos iniciantes e intermediários em risco, pois eles tentam pousar em áreas pequenas enquanto ainda aprendem as complexidades do pouso de alta performance.

Em alguns casos, as considerações das HPLAs acabam sendo bidimensionais, focadas apenas na separação ao nível do solo, com pouca consideração tridimensional sobre a execução das curvas e a aproximação no base da curva.

Por exemplo: alguém que pretende executar uma curva de 270° enquanto há outro paraquedista atrás e abaixo fazendo uma aproximação regular pode não vê-lo até já estar a 180° da curva e com alta razão de descida vertical. Veja o diagrama 1.

possível colisão no céu
Diagrama 1

Quase sempre é mais seguro que curvas de alta performance iniciadas em maior altitude se estendam além da área de pouso regular, como no diagrama 2.

evitando colisão no céu
Diagrama 2

Se a área de swoop e a área pouso regular estiverem muito próximas, outro método de separação é fazer com que a base da curva nos pousos de alta performance seja oposto ao dos pousos regulares. Veja o diagrama 3.

alternativa para evitar colisão no céu
Diagrama 3

Quando isso não é possível, garantir que o ganho de velocidade da curva aconteça mais afastada (mais a favor do vento) dos pousos regulares e designar uma zona de não voo é outra boa forma de separar pousos de alta performance dos pousos normais. Veja o diagrama 4.

zona proibido voar para evitar colisão no céu
Diagrama 4

2. ORDEM DE SAÍDA: FREEFLY / BELLYFLY

Diferentes DZs optam por colocar freeflyers ou grupos de formação primeiro. Alguns conhecimentos básicos sobre as duas modalidades, do ponto de vista da ordem de saída, envolvem projeção para frente e o deslocamento em queda livre. Saídas de freefly geralmente têm cerca de 50% mais projeção para frente do que saltos de barriga. É importante enfatizar que, para obter essa projeção extra, os freeflyers precisam ter um bom nível de experiência, freeflyers iniciantes podem ter uma projeção típica de saltos de barriga. De qualquer forma, esses 50% extras equivalem a cerca de 80 metros.

O fator mais relevante é o deslocamento em queda livre. Dados indicam que saltos de formação têm quase o dobro da deslocamento em comparação aos freeflyers. Em um exemplo conservador, com vento em altitude médio de 10 nós, um grupo de formação teria um deslocamento de 300 metros, enquanto um grupo de freefly teria cerca de 200 metros.

A abordagem tradicional — formação saindo antes do freefly — mantém os grupos bem separados, pois os grupos de barriga, que saem primeiro, se deslocam mais a favor do vento, e os freeflyers que saem depois se deslocam em direção a esse grupo, mas muito menos. Esse método geralmente proporciona boa separação horizontal e todos os grupos abrem em momentos semelhantes.

No entanto, como a tendência atual é que os paraquedistas mais experientes pratiquem freefly e usem velames menores e mais rápidos, enquanto os menos experientes (ou mais antigos) participam do belly com velames mais lentos, uma desvantagem desse método é que os velames menores e mais rápidos podem alcançar os mais lentos na navegação para pouso. Além disso, esses velames mais rápidos podem abrir mais afastados, aumentando a chance de pousos fora da área.

grupo de belly saindo primeiro evitando colisão no céu

Algumas DZs mudaram a ordem de saída para que todos os grupos de freefly saiam primeiro, seguidos por todos os grupos de barriga. Isso tem proporcionado grande separação, pois os freeflyers, com velames rápidos, têm uma razão de descida combinada maior e ficam bem mais baixos com o velame quando os grupos de belly começam a abrir.

grupo de freefly saindo primeiro evitando colisão no céu

Outras vantagens desse método são que os velames rápidos, saindo antes, lidam melhor com vento de frente se o PS for curto, enquanto os velames mais lentos lidam melhor com PS longos, voando de volta com vento de cauda.

A principal desvantagem é que grupos de belly podem deslocar sobre os grupos de freefly quando os ventos em queda livre estão particularmente fortes, ou pelo menos chegar mais perto do que o desejável. Isso pode passar despercebido por muito tempo, até a ocorrência — rara, mas possível — de uma abertura prematura de um freeflyer quando um grupo de barriga deslocou pra cima dele.

Ainda assim, esse método tem muitas vantagens na redução do tráfego sob velame. Os riscos mencionados podem ser mitigados garantindo que o primeiro grupo de FS após os freeflyers respeite uma separação maior na saída. Como referência, dobrar a separação prescrita para o primeiro grupo de FS seria uma boa recomendação. Algumas dessas nuances podem passar despercebidas por um jumpmaster inexperiente.

3. TRACKING / ANGLE JUMPS (DESLOC)

Por natureza, essas modalidades envolvem deslocamento lateral em relação à reta de lançamento. Muitas DZs recomendam que grupos de desloc se desloquem em direções alternadas e, às vezes, colocam grupos verticais entre eles na ordem de saída, grupos de freefly e belly, aumentando ainda mais a separação.

deslocamento basico
deslocamento avançado

Nesses grupos, o paraquedista responsável por liderar deve ter um bom entendimento dos ventos em altitude, da direção da reta de lançamento e dos pontos de referência da área. Ele deve compreender bem o cone do vento e garantir que não leve o grupo tão longe da área de pouso a ponto de não conseguirem navegar de volta com seus velames.

Algumas boas medidas de controle adotadas em várias DZs incluem:

  • Apenas paraquedistas experientes podem liderar saltos de tracking/desloc
  • Pode haver um limite para o número de grupos de desloc por decolagem
  • Caso dois grupos não possam se deslocar em direções opostas e precisem seguir na mesma direção, uma medida eficaz é usar um ponto de referência marcante para dividir o espaço aéreo, garantindo que cada líder mantenha seu grupo em sua própria área
sem desculpas para pousar fora

Pontos de encontro de velames são uma medida de controle relativamente nova. Ela é especialmente útil em saltos de ângulo muito íngremes, onde o grupo não se afasta muito da reta de lançamento. O ponto de encontro de velame é uma área designada onde, após a abertura, os paraquedistas continuam voando para longe da reta e formam um grupo de velames antes de seguir para a área de pouso. Isso reduz o risco de múltiplos grupos convergirem imediatamente de volta para a reta de lançamento, onde é fácil perder de vista um paraquedista isolado de outro grupo. Veja o diagrama 5.

encontro de velames
Diagrama 5 – grupos com previsão de deslocamento apenas por uma curta distância da reta de lançamento, com pontos de encontro de paraquedas designados.

4. FREEFLY SOLO / SALTOS COM COACH

Alguém que ainda está aprendendo freefly e não cai “dentro do tubo” pode se deslocar horizontalmente a até 50 kmh. Em 40 segundos, isso pode resultar em um deslocamento em queda livre de mais de 500 metros! Os paraquedistas devem receber um briefing detalhado sobre a importância de orientar o heading perpendicular à reta de lançamento — e os jumpmasters não devem ter receio de verificar se o paraquedista realmente entendeu a reta atual.

Deve ser prioridade máxima para coaches que trabalham com iniciantes garantir que o salto em dupla permaneça orientado perpendicularmente à reta de lançamento durante toda a queda livre, para que se afastem de outros paraquedistas.

5. FLOCKING / HIGH PULLS / TRV

A modalidade de trabalho relativo de velames (TRV) existe há muito tempo, mas novas modalidades estão surgindo e exigem abertura em altitudes incomumente altas (até mesmo na altitude máxima). Essas disciplinas tornam a operação de uma DZ mais complexa, mas não impossível.

Se um high pull for realizado, os jumpmasters devem considerar a razão de descida desses velames caso a aeronave vá repetir a reta e lançar paraquedistas em queda livre na mesma reta de lançamento. Por exemplo: high pull são lançados a 10.000 pés, com razão de descida de 1.000 pés por minuto; a aeronave leva dois minutos para subir até 12.000 pés e lançar freeflyers. Os velames da primeira reta ainda podem estar a 8.000 pés, tornando real a possibilidade de colisão entre queda livre e velame.

Uma possibilidade para reduzir esse risco é lançar os high pull na descida do avião, após os freeflyers. Melhor ainda é que os velames altos saiam na mesma reta dos outros grupos, eliminando a chance de alguém cair sobre eles. Se os high pulls saírem na mesma reta, em ventos fracos geralmente devem sair antes (talvez com uma reta própria), e em ventos fortes devem sair por último, em PS mais longos.

O método da “parede de vidro” é o mais eficaz: um elemento geográfico marcante (se for linear, como uma pista, melhor ainda) define a separação entre paraquedistas em queda livre e aqueles que abrem alto. Retas de lançamentos separadas e deslocadas para cada grupo, em seus respectivos lados da parede de vidro, aumentam ainda mais a separação, assim como um bom briefing para ambos.

Para quem pratica flocking, pode-se designar uma altitude (por exemplo, 2.500 pés) antes da qual não é permitido cruzar a parede de vidro ou, melhor ainda, se a área de pouso permitir, criar uma área de pouso separada. É igualmente importante que os paraquedistas em queda livre estejam cientes dessas medidas e não infrinjam a parede de vidro, seja com o velame ou em queda livre, por exemplo, fazendo tracking ou desloc. Veja o diagrama 6 como exemplo do uso da “parede de vidro”.

parede de vidro diagrama
Diagrama 6 – Divisão da parede de vidro

CONCLUSÃO

Em resumo, com muitas novas modalidades ganhando popularidade e aeronaves de grande capacidade, precisamos ter mente aberta sobre como acomodar todos com o máximo de segurança. Cada DZ é diferente e enfrenta restrições distintas, então muitas vezes precisamos trabalhar com o que temos. É fundamental reavaliar continuamente os procedimentos e garantir que os métodos de separação definidos funcionem em cenários de pior caso, e não apenas nos melhores cenários.


REFERÊNCIAS:

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