Relatório de Incidentes Não Fatais de 2024 – Parte 1: Incidentes de Pouso

A comunidade do paraquedismo tem conseguido reduzir de forma impressionante o número de fatalidades anuais ao longo das últimas seis décadas, e 2024 marcou um marco histórico. Pela primeira vez desde que a USPA começou a manter registros, em 1961, o número de fatalidades no paraquedismo civil dos EUA caiu para um dígito — apenas nove mortes em um total estimado de 3,88 milhões de saltos. Isso resultou em uma taxa de 0,23 mortes a cada 100.000 saltos, ou uma média de uma fatalidade a cada 431.111 saltos, o menor índice já registrado.

Esse tipo de progresso não acontece por acaso. Ele é resultado de um esforço contínuo em toda a indústria — com equipamentos melhores, programas de treinamento em constante evolução, dispositivos de segurança mais avançados e uma cultura de segurança cada vez mais sólida nas áreas de salto de todo o país. Mas esse avanço também depende de outro fator essencial: o relato e a análise consistentes de incidentes não fatais. Esses relatos permitem que a USPA identifique padrões, atualize treinamentos e continue avançando em segurança.

incidentes não fatais 2024

Embora muitos ainda busquem o objetivo de zero fatalidades, é importante reconhecer que, mesmo que isso seja alcançado, o paraquedismo não se tornaria “seguro” no sentido convencional. O paraquedismo é — e sempre será — uma atividade com riscos inerentes. No entanto, ele permanece sustentável com vigilância constante, boas decisões e uma cultura de responsabilidade. O relato de incidentes não fatais é parte fundamental disso. Independentemente de quão pequeno um incidente possa parecer, cada relatório representa uma oportunidade para toda a comunidade aprender, se ajustar e evoluir.

Em 2024, a USPA recebeu 269 relatos de incidentes não fatais — 59 a menos do que em 2023 — mesmo com um aumento de mais de 230.000 saltos no período. É possível que isso reflita melhorias reais na segurança, mas modelos clássicos de acidentes industriais, como a Pirâmide de Heinrich e o Triângulo de Bird, sugerem que a subnotificação é uma causa mais provável. Comparações com dados de outras associações de paraquedismo reforçam essa hipótese, indicando que a USPA deveria receber mais de 6.000 relatos de incidentes por ano.

Um incidente não reportado pode parecer insignificante isoladamente, mas, quando analisado como parte de um padrão maior, pode fornecer informações críticas sobre tendências emergentes. Independentemente de quão pequeno o evento pareça, deixar de reportá-lo é perder uma oportunidade de melhorar a segurança. Aumentar tanto a quantidade quanto a qualidade dos relatos é uma das formas mais eficazes de os membros da USPA contribuírem para a segurança contínua e a sustentabilidade de longo prazo do paraquedismo nos EUA.

Índice de Gravidade de Lesões (ISI)

Este relatório utiliza um Índice de Gravidade de Lesões (Injury Severity Index – ISI), que classifica a gravidade das lesões sofridas em uma escala de 1 a 5:

1 | Lesão em tecidos moles, normalmente exigindo apenas primeiros socorros locais
2 | Um osso quebrado ou múltiplas fraturas em um mesmo osso ou articulação, incluindo luxações
3 | Múltiplos ossos quebrados
4 | Traumatismo craniano ou lesão na medula espinhal
5 | Fatal (não incluído neste relatório)

Nas seções a seguir, os incidentes não fatais são categorizados por causa principal, indicando a porcentagem que cada categoria representa. Como os dados históricos completos são limitados, os números de 2024 são comparados à média de 2019–2023 para ajudar a identificar padrões e orientar melhorias futuras. Após excluir relatos de fatalidades, preocupações gerais de segurança sem um incidente específico e envios com informações insuficientes para classificação adequada, esta análise se concentra nos 215 incidentes restantes.

Problemas no Pouso

112 casos – 52,1% (média 2019–2023: 48,6%)

Os incidentes relacionados a pouso aumentaram 3,5% em 2024 em relação ao ano anterior. De 2019 a 2021, representaram 45% de todos os relatos, com um ISI médio de 2,1. De 2022 a 2024, esse número subiu para 54%. Sem dados completos, é difícil determinar se os problemas de pouso realmente aumentaram ou se passaram a ser mais reportados. Outro fator pode estar influenciando essa tendência: conforme apontado no Relatório de Fatalidades de 2024, o número absoluto de incidentes de pouso permaneceu relativamente estável, enquanto outras categorias diminuíram gradualmente. Isso faz com que os problemas de pouso pareçam mais frequentes em termos percentuais.

Como resposta a essas estatísticas persistentes, a USPA adotou diversas medidas. Os temas do Safety Day dos últimos três anos focaram exclusivamente em problemas de pouso: “Land Like Your Life Depends On It (Pouse como se sua vida dependesse disso)”, seguido de “Stay Alive – Practice Five (Stay Alive – Cinco Práticas)”, e, neste ano, “Expect the Unexpected (Espere o Inesperado)”. Todas as campanhas buscaram aumentar a conscientização sobre procedimentos de emergência em baixa altura e habilidades de pilotagem de velame necessárias para lidar com situações críticas sob um paraquedas totalmente inflado.

Mais recentemente, a USPA iniciou uma revisão completa do Skydiver’s Information Manual (SIM), incluindo a introdução de Procedimentos de Emergência em Voo de Velame (CEPs) no programa de alunos. Essa inclusão visa ajudar novos paraquedistas a desenvolverem habilidades e mentalidade adequadas para lidar com emergências após decidir que o velame é pousável.

Subcategorias de Problemas de Pouso

Os problemas de pouso se dividem em três subcategorias principais, cada uma exigindo abordagens específicas de treinamento:

  • Curvas baixas intencionais: manobras deliberadas de alta performance para pouso, iniciadas em altitude insuficiente para recuperação completa.
  • Curvas baixas não intencionais: curvas reativas e não planejadas, geralmente para evitar tráfego ou obstáculos.
  • Sem relação com curvas: técnicas de pouso inadequadas, pousos em obstáculos ou riscos ambientais sob velame funcionando corretamente.

Índice de Gravidade por Tipo de Curva

Curva baixa intencional – ISI médio: 3,1
Curva baixa não intencional – ISI médio: 2,5
Problema de pouso (sem curva) – ISI médio: 2,1

Grau da Curva

  • Menor que 180° – ISI: 2,3 (64%)
  • Maior que 180° – ISI: 4,0 (36%)

Infelizmente, muitos relatos não continham informações suficientes sobre tamanho do velame ou peso de saída, impossibilitando uma análise significativa da relação entre wing loading e ISI.

Curvas Baixas Intencionais

11 casos – 5,1% (média 2019–2023: 7,1%)

As curvas baixas intencionais diminuíram ligeiramente em 2024, mas continuaram resultando em lesões graves, com ISI médio de 3,1. Esses incidentes envolveram tanto pilotos experientes quanto paraquedistas categoria C explorando manobras de alta performance. O padrão se manteve claro: quanto maior a curva, mais grave o resultado.

Todos os casos envolveram paraquedistas experientes realizando curvas de 90° ou mais, frequentemente em condições climáticas ideais e com equipamento funcionando corretamente. Um fator recorrente foi a fixação no alvo — a insistência em completar a manobra apesar de uma configuração insegura ou tráfego intenso.

O padrão reforça a importância do planejamento adequado, altitude de recuperação suficiente e disciplina para abortar quando necessário. A solução não é apenas técnica, mas também mental: saber desistir. Um pouso reto e seguro sempre vence uma curva baixa mal executada.

Curvas Baixas Não Intencionais

15 casos – 7,0% (média 2019–2023: 4,8%)

As curvas baixas não intencionais aumentaram em 2024, com ISI médio de 2,5. Apesar do aumento, não houve fatalidades — um sinal positivo de que os ajustes feitos estão sendo menos agressivos.

Na maioria dos casos, uma curva controlada em meia-freio teria evitado a lesão. Essas técnicas fazem parte dos CEPs promovidos pela campanha “Stay Alive – Cinco Práticas” que você pode ler aqui e só funcionam quando já foram treinadas previamente.

O que se observa é uma mudança: os erros continuam ocorrendo, mas de forma menos severa. Isso é progresso, embora ainda haja espaço para evolução.

Incidentes Sem Curva

86 casos – 40% (média 2019–2023: 36%)

Entre os incidentes sem curvas baixas, o erro mais comum foi técnica inadequada de flare, responsável por 22,4% dos casos. O ISI médio foi 2,3. Análises mostram que flares antecipados resultaram em lesões menos graves do que flares tardios ou ausentes. Curiosamente, flares parciais, quando bem temporizados, apresentaram o menor ISI (1,0).

Esses dados reforçam a importância do Pouso em Rolamento (PLF). Mesmo tentativas imperfeitas de PLF estão associadas a lesões menos graves. O SIM é claro: esteja preparado para executar um rolamento em todo pouso.

Outros destaques:

  • Pousos tandem: 20% dos casos (ISI médio 2,0)
  • Obstáculos (cercas, valetas, estradas): 14,1% (ISI 2,3)
  • Pousos deslizando em terreno irregular: 11,8% (ISI 2,0)
  • Turbulência próxima ao solo: 9,4% (ISI 1,9)

O caso mais grave envolveu a perda de um batoque, resultando em descida em alta velocidade e ISI 3,0.

Em todas as categorias, a severidade da lesão foi determinada não apenas pelo erro inicial, mas principalmente pela resposta do paraquedista. Boas práticas, preparo para rolamento e planejamento conservador continuam sendo as melhores defesas.

Conclusão

Os incidentes de pouso representam a maior parcela das lesões, mas não são o único risco. A subnotificação continua sendo um grande obstáculo. Cada incidente não reportado cria uma lacuna no entendimento coletivo e dificulta a prevenção de futuras lesões.

Na parte dois desse assunto, a análise seguirá para outros tipos de incidentes: problemas de equipamento, colisões em voo, enroscamentos e aberturas baixas — riscos diferentes, muitas vezes com ainda menos aviso prévio.


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