A primeira parte deste artigo (veja aqui) apresentou uma análise dos 112 relatos de incidentes em pouso registrados em 2024, que representaram 56,1% de todos os incidentes não fatais do ano. Nesta segunda parte, examinamos os relatos restantes, todos referentes a incidentes que não ocorreram durante o pouso.
Para focar nas preocupações mais críticas e oferecer recomendações práticas, vamos nos concentrar nas quatro categorias com maior número de incidentes.
Índice de Gravidade de Lesões (ISI)
Este relatório utiliza um Índice de Gravidade de Lesões (Injury Severity Index – ISI), que classifica a gravidade das lesões sofridas em uma escala de 1 a 5:
1 | Lesão em tecidos moles, normalmente exigindo apenas primeiros socorros locais
2 | Um osso quebrado ou múltiplas fraturas em um mesmo osso ou articulação, incluindo luxações
3 | Múltiplos ossos quebrados
4 | Traumatismo craniano ou lesão na medula espinhal
5 | Fatal (não incluído neste relatório)

Problemas com Equipamentos — 36,17%
(2019–2023: 13%)
Os incidentes relacionados a equipamentos subiram para 17%, um aumento perceptível em relação à média de cinco anos, que era de 13%. Apesar disso, o índice médio de gravidade das lesões (ISI) nos 36 relatos foi de apenas 0,42, pois a maioria dos eventos não resultou em ferimentos. Apenas oito incidentes incluíram lesões reportadas, com um ISI médio de 1,71 entre eles. Embora a maioria tenha sido moderada, dois envolveram traumas graves (ISI 4), como lesões na coluna ou no cérebro.
O que se destaca nos dados é que o problema inicial do equipamento — seja uma falha na linha de freio, um componente mal montado ou line twists — muitas vezes foi apenas o começo. Em vários casos, a situação se agravou quando o paraquedista reagiu de forma incorreta.
Em um exemplo, um paraquedista que teve line twist após a abertura perdeu a consciência de altitude, e um dispositivo de abertura automática (DAA), deixado inadvertidamente no modo studant, acionou o reserva em um velame principal já comprometido. O resultado foi um enrosco de dois velames, levando a um pouso duro e uma lesão grave.
Em outro caso, um paraquedista PRO-rated teve um desprendimento parcial do “flag” (flag se refere a um um tecido de arrasto conectado ao sistema de abertura do velame principal, usado em configurações especiais) durante a abertura do velame principal houve este utensilio de soltou. O paraquedista segurou a flag com a mão esquerda durante toda a descida, mas esqueceu que não estava segurando o batoque esquerdo e fez o flare com as duas mãos, causando uma curva severa, pouso duro e lesão.
Esses exemplos refletem um padrão conhecido: a maioria dos problemas de equipamento é gerenciável — até deixar de ser. Não é apenas a falha inicial que importa, mas sim a configuração do equipamento e a rapidez e eficácia da resposta do paraquedista.
Entre os oito casos com lesões, três envolveram DAAs, na maioria configurados no modo incorreto, causando aberturas do reserva e enroscos de velames. Esses casos reforçam que, embora os DAAs sejam dispositivos críticos de segurança, eles dependem de uma configuração correta. Uma incompatibilidade entre o modo do dispositivo e a disciplina do salto pode transformar uma proteção em um risco.
Problemas de dobragem foram a subcategoria mais frequente, aparecendo em oito relatos. Normalmente envolveram componentes mal montado ou bridles mal alojadas. Um paraquedista sofreu uma abertura forte e lesão no ombro após a bridle se soltar durante a subida da aeronave e engatar em algo na saída, resultando em uma abertura prematura. Em outro caso, uma linha de freio se enrolou ao redor de um sistema de abertura removível (slider RDS), fazendo o velame entrar em giro logo na abertura. Esses incidentes reforçam a importância de foco durante a montagem e a dobragem, além de checagens de equipamento cuidadosos.
Line Twists apareceram em cinco relatos, mais comumente após saltos de freefly. Nesses casos, os twists se formaram durante a abertura e foram geralmente atribuídos a posição corporal assimétrica, e não a erro de dobragem. Em um caso, o paraquedista entrou em um giro rápido sob o velame e precisou desconectar. Os investigadores não encontraram problemas no equipamento ou na dobragem, indicando que o twist foi causado por desalinhamento dos ombros ou quadris durante a fase de abertura. Esses incidentes mostram como a posição do corpo na abertura pode influenciar o desempenho do velame tanto quanto a configuração e a dobragem, especialmente quando o paraquedista não se estabiliza em posição barriga para baixo antes da abertura.
Punho duro (hard pulls) representaram quatro relatos, sem identificação de causa mecânica clara. O padrão observado foi preocupante: em todos os casos, o paraquedista perdeu a consciência de altitude, ficou instável ou ambos, enquanto tentava resolver o problema. Embora seja provável que alguns tenham resolvido com sucesso sem reportar, os casos enviados mostram que o problema se agravou por má execução após o punho duro. Esses incidentes contribuíram para três das oito lesões na categoria de problemas com equipamentos, reforçando uma lição chave: diante de dificuldades na abertura, o que mais importa é a calma e a competência na resposta.
Os paraquedistas devem tratar a montagem e a dobragem como um processo deliberado e sem pressa, não como uma tarefa rotineira. Posicionamento dos punhos, configurações do DAA, bridle e pilotinho — tudo merece atenção total. Se algo parecer errado durante a preparação, pare e investigue. A maioria desses incidentes não foi causada por azar ou falha mecânica, mas por pequenos descuidos que se transformaram em oportunidades perdidas de prevenção.
Colisões — 13, 6,1%
(2019–2023: 4,5%)
A categoria colisões inclui impactos em queda livre, sob velame e com a aeronave, cada um com características e fatores contribuintes distintos. Dos 13 incidentes, 100% resultaram em lesões, com ISI médio de 1,85, tornando esta uma das categorias mais propensas a ferimentos.
Ao comparar taxas de colisão por nível de licença, os dados mostram um aumento constante das categorias A até C, com pico na C, seguido de leve queda na D. Isso sugere que os paraquedistas começam a explorar disciplinas mais avançadas e grupos maiores antes de desenvolver plenamente a consciência situacional necessária para ambientes aéreos complexos. Esses dados reforçam as recomendações do SIM – Manual do Paraquedista da USPA, que orienta limitar tamanho e complexidade de grupos enquanto a experiência ainda está sendo construída.
Colisões em Queda Livre
As colisões em queda livre foram a maioria, com sete incidentes e ISI médio de 2,29. Ocorreram durante saídas linkadas, formações de wingsuit ou saltos de disciplinas mistas, quase sempre atribuídas à instabilidade, planejamento inadequado ou extrapolação de limites.
Dois incidentes envolveram wingsuiters em saídas linkadas que ficaram instáveis logo após a saída. Em um deles, os dois perderam os grips e colidiram, resultando em uma lesão grave (ISI 4). Outro ocorreu em um salto de formação mista, onde uma colisão leve abriu inadvertidamente a aba do principal do equipamento de outro paraquedista, causando uma abertura prematura ao transitar para back-flying, seguida de uma segunda colisão.
Uma das lesões mais graves (ISI 4) ocorreu em um salto de XRW (Extreme Relative Work), onde planejamento e treino insuficientes contribuíram para uma colisão entre dois wingsuiters. Apesar da experiência, o plano foi alterado durante a subida, gerando confusão e levando ao impacto. Esse caso reforça a necessidade de briefings claros, planos bem definidos e comunicação rigorosa, conforme recomenda o SIM.
Colisões Sob Velame
As colisões sob velame totalizaram cinco incidentes, mas apenas dois com lesões. Ambos (ISI 3) ocorreram quando um paraquedista fez curvas agressivas na aproximação final, sem perceber outro diretamente atrás, resultando em colisão e enrosco a cerca de 30 pés do solo, com múltiplas fraturas.
Outro caso envolveu um aluno em seu quarto salto, que mudou a direção do pouso tardiamente, causando colisão. Os demais ocorreram em saltos de grandes grupos após a separação. A lição é clara: atenção constante ao tráfego de velames.
Colisões com Aeronaves
Apenas um incidente envolveu contato com a aeronave, resultando em lesão leve. Um paraquedista categoria A e 26 saltos bateu a cabeça na porta ao sair de um Cessna 208B, devido à má posição corporal e ausência de capacete.
O que conecta todos os tipos de colisão é que quase todas são evitáveis com planejamento, briefing adequado e consciência espacial. Suposições substituindo comunicação aumentam exponencialmente o risco.

Aberturas Baixas — 10, 4,7%
(2019–2023: 3,7%)
As aberturas baixas ocorreram em todos os níveis de categorias, mas foram quatro vezes mais comuns entre alunos. Em todos os casos, o DAA acionou durante a abertura do principal, resultando em dois velames abertos. Nenhum causou lesões graves, mas todos envolveram perda de consciência de altitude por distração.
Problemas com o punho do principal também apareceram em todos os níveis, com paraquedistas fixados na tentativa de comandar além das altitudes recomendadas, sem transição adequada para procedimentos de emergência.
Instabilidade, distrações e até tentativas de ajudar alunos levaram instrutores experientes a ultrapassar seus próprios hard decks. A mensagem é clara: a altitude de abertura não é uma sugestão, é um limite absoluto.
Enroscos e Instabilidade — 9, 4,2%
(2019–2023: 0,7%)
Embora sem lesões, os casos mostram uma forte ligação entre instabilidade corporal e enroscos durante a abertura. Alunos foram cinco vezes mais propensos a esses problemas. Muitas vezes, instabilidade gera enrosco — ou o contrário.
Um exemplo marcante envolveu um aluno em hop-and-pop cujo pilotinho passou por baixo do braço após uma saída instável e um comando fraco. Ele conseguiu resolver, mas desviou do protocolo do SIM, criando um precedente perigoso para decisões futuras.
Outros casos envolveram instrutores e alunos em situações onde a instabilidade escalou rapidamente, reforçando a necessidade de consciência de altitude rigorosa, mesmo ao prestar assistência.
Conclusão
Um tema recorrente em todas as categorias é que a maioria dos incidentes não foi causada por falha de equipamento ou azar, mas por lapsos momentâneos de consciência, planejamento ou aderência ao treinamento. Esses incidentes que não envolvem pouso lembram que preparo, calma e treinamento são essenciais durante todo o salto.
Por isso, reportar incidentes não fatais é fundamental. Cada relato ajuda a identificar padrões, melhorar o treinamento e prevenir acidentes. Mesmo quando ninguém se machuca, as lições são reais. Se queremos menos lesões, paraquedistas mais conscientes e céus mais seguros, tudo começa com compartilhar sua história — e isso significa relatar todos os incidentes, não apenas os que viram manchete de jornal.
REFERÊNCIAS:




