Segurança Operacional de Paraquedismo

Falemos de segurança hoje, um tema considerado tabu no paraquedismo. Dificilmente chega-se em consensos quando se fala sobre segurança nas operações áreas brasileiras. Mais controverso ainda por ser tamanha a riqueza de estudos na área de aviação civil sobre o assunto, mas pouco é aplicado no nosso esporte aeronáutico.

Este artigo foi escrito por Vivian Valentini Bragante (Vivi), na pós-graduação do curso de ‘Planejamento e Gestão Aeroportuária’, e este artigo é baseada em sua tese “Sistema de Gerenciamento de Segurança Operacional de Paraquedismo: Aeroporto de Boituva”. Professor orientador: Chrystian Ciccacio.

SEGURANÇA OPERACIONAL

O documento 9859 da ICAO (Internacional Civil Aviation Organization) é uma proposta de Manual de Gerenciamento de Segurança para Aeroportos. Um dos conceitos pilares de segurança nas operações ligadas a aviação é a teoria proposta por James Reason sobre “Trajetória das Condições Latentes”.

De acordo com Reason, existem barreiras criadas pelo sistema aeronáutico, sendo que um acidente somente ocorre quando uma condição latente pré-existente encontra uma sincronicidade de ‘buracos’ nas diversas barreiras do sistema. Assim, investigar um acidente é mais do que apontar culpados e buscar falhas de equipamento. Acidentes na aviação são analisados dentro deste conceito, onde identifica-se as falhas do sistema como um todo, as quais possibilitaram a trajetória da condição latente até a efetivação do acidente.

Segurança Operacional no Paraquedismo
(Quadro pag. 2-6 – Doc. 9859 ICAO)

Barreiras de Segurança

Vejamos mais detalhadamente. A primeira barreira é a própria organização. Uma organização formal que gerencia aeroportos – a Infraero por exemplo – consegue com mais facilidade capacitar e treinar seus colaboradores, conscientizando os envolvidos na operação e adotando medidas que reforcem e fiscalizem uma atitude segura dos agentes.

Agora vejamos Boituva, uma das maiores áreas de paraquedismo do mundo, como exemplo. Embora haja organizações formais que administrem a área, boa partes das operações são feitas sem supervisão direta destes órgãos. Assim, a realidade em Boituva é uma organização basicamente informal, que opera sobre a gerência de diversas organizações menores (as escolas).

As decisões sobre segurança no paraquedismo são tomadas muitas vezes pelos paraquedistas envolvidos na operação, sejam instrutores ou atletas. E os processos operacionais são criados por esta organização informal divergente e por indivíduos muitas vezes despreparados para entender a segurança da operação. Enquanto em outros aeroportos confia-se na organização como uma barreira sólida, a nós paraquedistas cabe cada um fazer sua parte para fortalecer a primeira barreira contra acidentes: a própria organização.

A segunda barreira são as Condições de Trabalho. Aqui enquadra-se o ambiente no qual se opera: as condições climáticas, os equipamentos disponíveis à operação, fatores ambientais, etc. Quando se vê escolas operando em condições climáticas adversas, deve haver a compreensão que esta sendo retirada uma barreira importante na trajetória de condições latentes. Equipamentos inadequados também ameaçam a segurança da operação.

A terceira barreira, geralmente uma das mais fortes são as pessoas envolvidas na operação. Esta barreira é muito importante pois o ser humano tem a capacidade de julgar e identificar falhas no processo, capturando a condição latente neste momento. Todavia, uma falha humana não pode ser apontada como causa de acidente, pois ela sozinha é apenas uma das barreiras que deveriam existir para evitar acidentes. Uma organização com processos focados em segurança dificilmente transformaria uma falha humana em um acidente.

Salto recorde

Um ponto importante nesta barreira é que existem dois tipos de falha humana: o erro e a violação. Não há sistema humano livre de erros – o erro nada mais é que um componente do sistema e deve ser gerenciado como tal. Todos estamos suscetíveis a cometer erros, e por isso a segurança aeronáutica muitas vezes baseia-se em sistemas redundantes para mitigar riscos. A violação difere-se do erro na intenção, pois o indivíduo sabe que pode gerar consequências quando toma a ação. As violações podem ser:

  • Situacionais: acontecimentos pontuais.
  • De rotina: quando o grupo tem dificuldade em seguir procedimentos estabelecidos, normatizando tarefas por questões práticas.
  • Induzidas pela organização: são uma extensão das violações de rotina, geralmente ligada a processos mal desenhados e excesso de demanda.

Por fim, a última barreira que o sistema aeronáutico possui são as defesas. As defesas são constituídas por três pilares: Regulamentação, Treinamento e Tecnologia. Atualmente no meio do paraquedismo temos uma tecnologia muito bem desenvolvida. Mas nos carece treinamentos sobre segurança operacional, e a regulamentação poderia ser reforçada tanto no que rege o esporte quanto os órgãos ligados a operação das aeronaves no lançamento de paraquedistas. Esta barreira é uma das mais fortes no setor da aviação civil, e pode servir como exemplo para as operações de nossas áreas de salto.

Assim, conscientizando os agentes envolvidos na operação do aeroporto (instrutores, atletas, alunos, passageiros, pilotos, manifesto, dobradores, abastecimento, resgate, empresários, etc) podemos fortalecer as barreiras que temos, criando um novo conceito sobre segurança no paraquedismo, nosso querido esporte.

GESTÃO DE INFORMAÇÃO DE SEGURANÇA EM AEROPORTOS

Um tópico importante quando falamos de gerir segurança no segmento aeronáutico ou paraquedismo é a forma como a organização distribui informações, fomentando conhecimento entre os agentes envolvidos na operação.

A ICAO (Internacional Civil Aviation Organization), agência da ONU responsável por gerir a aviação civil a nível mundial, em seu Doc. 9859 propõe três formas das organizações aeroportuárias gerirem informações.

PATOLÓGICABUROCRÁTICAGERADORA
INFORMAÇÃOEscondidaIgnoradaBuscada
MENSAGEIROSEliminadosToleradosTreinados
RESPONSABILIDADEDissimuladasEncapsuladasCompartilhadas
REPORTESEvitadosPermitidosRecompensados
FALASEncobertasDesculpadasAnalisadas
NOVAS IDEIASRestringidasProblemáticasBem vindas
ORGANIZAÇÃO RESULTANTEOrganização ConflitivaOrganização BurocráticaOrganização Confiável
Quadro pag. 2-29 SMM ICAO

Observando este conceito sob a perspectiva da operação de paraquedismo, a primeira dificuldade que encontramos é a própria organização. É diferente de uma empresa privada convencional, onde os agentes da estrutura organizacional podem ser levados a manter uma conduta segura por comando dos superiores sob uma hierarquia de poder. A organização em áreas de salto é tipicamente informal, sendo todos os agentes envolvidos na operação de paraquedismo responsáveis por agirem de maneira a dividir conhecimento com os outros agentes.

A organização ideal para fomentar uma operação segura é a Geradora. As informações são buscadas por todos, e tal prática é incentivada entre os atletas e instrutores. Mensageiros são treinados para disseminar conhecimento. As responsabilidades de segurança são compartilhadas por todos os agentes, uma vez que um problema de segurança pode afetar a operação inteira.

Dia da Segurança no Paraquedismo
Banner Dia da Segurança 2019

Reportes sobre segurança são recompensados, e novas informações são bem vindas. A estrutura resultante de uma organização geradora são agentes bem informados, motivados a buscarem mais informações e a nivelar conhecimento entre as pessoas envolvidas na operação…isso é sinônimo de Organização Confiável. E só compartilhando informação entre os agentes e capacitando-os em questões de segurança é que poderemos ter uma área verdadeiramente segura. Os agentes precisam ser conscientizados da importância de fomentar atitudes seguras e cada um fazer a sua parte para garantir a segurança do todo, especialmente pelo exemplo. Já dizia minha avó, de grão em grão a galinha enche o papo. Você faz sua parte?

EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE SEGURANÇA EM OPERAÇÕES AEROPORTUÁRIAS

Antes de mais nada, defina o que significa segurança em operações de paraquedismo para você. Segurança é zero acidentes? Ausência total de perigos e riscos? Cumprir regulamentos?

Atualmente a ICAO (International Civil Aviation Organization) define segurança como:

  • Safety: The state in which the possibility of harm to persons or of property damage is reduced to, and maintained at or below, an acceptable level through a continuing process of hazard identification and safety risk management.” (Doc. 9859, pag. 2-2)

O Decea utiliza a mesma definição, em português:

  • Segurança Operacional: é o estado em que o risco de lesões às pessoas ou danos aos bens se reduzem e se mantém em um nível aceitável, ou abaixo deste, por meio de um processo contínuo de identificação de perigos e gestão de riscos.

Assim sendo, temos que olhar a segurança de operações no paraquedismo sob uma perspectiva realista. A eliminação de todos os acidentes (e incidentes) é impossível. As falhas seguirão ocorrendo apesar dos esforços, pois não há sistema humano livre de riscos e erros. Os riscos passam a ser aceitáveis dentro de um sistema implicitamente seguro, desde que sejam gerenciadas e estejam sob controle. Então a chave para melhorar a segurança é gerir perigos.

Vejamos a evolução do pensamento em matéria de segurança no quadro abaixo:

fatores de segurança no paraquedismo

No começo da historia da aviação, os fatores técnicos eram responsáveis pela maior parte dos acidentes. Com a maturidade do setor, os equipamentos ficaram mais confiáveis, mas ao mesmo tempo mais complexos, e observou-se que os erros migraram para causas humanas. As empresas naturalmente migraram seus esforços também para combater estes erros, e aprimorou-se treinamentos aos agentes envolvidos nas operações. Regras trabalhistas passaram a ficar cada vez mais rígidas, e os equipamentos inteligentes.

Hoje em dia, a maior parte dos acidentes tem suas causas em fatores organizacionais. Mas afinal, o que é isso? Fatores organizacionais podem ser definidos como decisões gerenciais e processos organizacionais.  Quando falamos de uma área de salto, isso equivale a hábitos de praticas inseguras, onde os atletas, instrutores, donos de escola e de avião se omitem, não reforçando uma atitude positiva em relação a segurança, e permitem ações imprudentes e inseguras.

Também falamos de processos não definidos de embarque, padrão de navegação confuso, falta de habito de comunicação entre os paraquedistas e piloto, etc. Agora que você sabe o que é segurança de operações, o que você pode fazer para ajudar a segurança de todos?

LUCRO X SEGURANÇA

Qual o objetivo primordial de uma organização comercial? Qualquer um responderia que é o lucro, afinal ninguém trabalha de graça.

A ICAO (International Civil Aviation Organization) utiliza o conceito de SMS (Safety Management System – Sistema de Gerenciamento de Segurança) para falar sobre custo e segurança de operações. Vejamos este conceito por partes:

  • Safety: Um estado no qual o risco de lesão às pessoas ou danos à propriedade é reduzido a, ou mantido abaixo de, um nível aceitável por meio de um processo continuo de identificação dos perigos e gerenciamento do risco.
  • Management: Alocação de recursos.
  • System: Um conjunto organizado de processos e procedimentos. Então, para alcançar os objetivos empresarias, a administração deve decidir onde alocar recursos, buscando o equilíbrio entre valor investido e retorno desejado. Isso gera um dilema gerencial.
(ICAO – Doc. 9859 – Pg. 3-3 – Figure3-1B)

Muito dinheiro gasto em proteção leva a organização à falência, pois ela não será mais rentável. Todavia, o outro extremo, a falta de investimento proteção e o aumento da produção, deixa a organização mais suscetível à acidentes, o que pode ser mais custoso do que o valor inicial para preveni-los. Utiliza-se o conceito ALARP (as low as reasonably practicable – ICAO Doc. 9859 – Pg.5-2) para definir este equilíbrio entre o praticável e a segurança.

Para nós, atletas e instrutores, a realidade é que a vaga fica mais cara. Todavia, se pensarmos que isso pode evitar um acidente, os valores ficam aceitáveis. A ICAO propõe um gráfico onde ilustra a área de segurança operacional aeronáutica.

(ICAO – Doc. 9859 – Pg. 3-7 – Figure3-3)

Mas como saber se os valores estão sendo devidamente alocados em segurança e como garantir que os sistemas são eficientes? O DECEA propõe uma estrutura para garantir a eficiência do sistema:

  • Supervisão da segurança – É a supervisão com relação ao SGSO dos exploradores / provedores de serviços.
  • Garantia da segurança – É a operacionalização do sistema de gerenciamento de segurança pelos exploradores/provedores de serviços, com relação ao monitoramento e à medição do desempenho da segurança.
  • Auditoria de segurança – É a fiscalização normativa com relação ao programa de segurança e os exploradores/provedores de serviços com relação ao SGSO. Assim, cabe aos agentes envolvidos com a operação e às entidades que normatizam o esporte no país garantirem a segurança das operações, em conjunto.

CONCLUSÃO

A segurança no paraquedismo depende de vários fatores e de diversos envolvidos no processo. Alguns pontos citado nesse artigo são mais simples de se praticados, outras muito mais burocráticos por diversos motivos.

Mas cabe a nós fazer a diferença pessoal, cada um faz sua parte. Como atleta, faça sua parte, garanta que o seu salto aconteça com segurança.

E lembre que o melhor salto é sempre o próximo. Blue Sky!


REFERÊNCIAS:

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SOBRE O AUTOR

Diego Rodrigues

Fundador e administrador da SkyPoint Paraquedismo

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