DAA: Conheça a história e como funciona

No paraquedismo, um Dispositivo de Abertura Automática (DAA), em inglês Automatic Activation Device (AAD), é um dispositivo eletrônico ou mecânico que libera automaticamente o paraquedas reserva em uma altitude predefinida ou após um tempo predefinido, este é um dos principais componentes do paraquedas.

DAA são normalmente usados para cortar o loop do paraquedas reserva em uma certa altitude se a razão de queda livre exceder a velocidade estabelecida. Isso indica que o paraquedista não comandou o paraquedas principal ou que o paraquedas principal está com alguma pane e não está diminuindo a velocidade de queda livre o suficiente.

Veja na prática o que o DAA faz

Os DAA mecânicos são mais antigos e estão saindo de moda em favor de modelos eletrônicos mais novos. Modelos mais modernos provaram ser mais confiáveis, pois seus computadores embutidos permitem uma melhor leitura da altitude e da velocidade vertical. DAA eletrônicos normalmente empregam uma pequena carga pirotécnica para cortar o pino do paraquedas reserva, permitindo que o velame reserva seja acionado pela mola e saia do container.

Muitos países obrigam que todos os paraquedistas saltem utilizando DAA, inclusive no Brasil, segundo as regras da CBPQ:

Art. 76 É obrigatória à utilização de dispositivo de abertura automática do reserva (DAA) ligado e devidamente em dia com as manutenções previstas pelo manual do fabricante, para todas as categorias.

A HISTÓRIA DO DAA

Os irmãos Doronin (Nikolay, Vladimir e Anatoly) nasceram na Sibéria, na região de Kimiltey. Seu pai os enviou a Moscou para estudar e o destino uniria os irmãos com a aviação a partir de então.

Em março de 1936 , o rádio comunicou a triste notícia da morte de duas famosas paraquedistas, Tamara Ivanova e Lyuba Berlin. As paraquedistas abriram seus paraquedas muito baixos.  E em 24 de junho de 1936, outra paraquedista, Nata Babushkina morreu por comandar muito baixo durante um salto de exibição. Testemunhas presentes no local do acidente indicaram que ela comandou a aproximadamente 40m do solo, não tendo tempo suficiente para que o paraquedas pudesse inflar totalmente.

O governo da URSS declarou uma competição em 1936 para conceder um prêmio a quem inventasse um sistema que abriria o paraquedas automaticamente. Sabendo que durante a infância realizaram inúmeros projetos, os irmãos decidiram se inscrever no evento.

Após dois anos de trabalho, em 1938, o dispositivo dos Doronin foi aceito pela Comissão Especial Estadual, criada para testar os dispositivos, da qual participaram cientistas renomados, especialistas na área de aerodinâmica, construção de aeronaves, representantes das fábricas de paraquedas, etc., um total de mais de 300 propostas foram enviadas para testes. O engenheiro Yangel os encorajou a testar o dispositivo nas condições mais extremas, então eles apresentaram um dispositivo pequeno, mas robusto e confiável ao júri.

Irmãos Doronin
Irmãos Doronin

Os paraquedistas Romanyuk , Amintaev e Gulnik foram os responsáveis ​​por testar o dispositivo durante o salto, que recebeu o nome oficial de PPD-1 (Parashyut Pribor Doroninikh-1) e funcionou muito bem, entretanto o dispositivo não possuía nenhum tipo de configuração e funcionava sempre na mesma condição que já era definido na fabricação.

Em paralelo a isso, pouco depois dos acidentes mencionados, o engenheiro Leonid Savichev iniciou um trabalho em um dispositivo que usava um sensor barométrico com uma cápsula aneroide como principal elemento de acionamento. O dispositivo permitia ajustar a pressão na área de salto e a altura de abertura desejada, independentemente da altura que seria realizado o salto. O instrumento foi batizado de PAS-1 (Parashut Avtomat Savichev-1) e entrou em serviço em 10 de outubro de 1940. Esse avanço permitiu, pela primeira vez no mundo, a real possibilidade de realizar um salto, independentemente se o lançamento fosse na altura pré-estabelecida, uma vez que o sensor incorporado na cápsula aneroide acionaria o mecanismo de abertura ao passar pelos valores de pressão atmosférica determinados.

Em plena Segunda Guerra Mundial os dispositivos PPD-2 (uma evolução do PPD-1, mas que também contava com sensor barométrico) e o PAS-1 foram usados ​​em diversas missões pela Força Aérea Soviética como um elemento de segurança para paraquedistas, em missões de suprimento aéreo, para lançamentos em uma altitude fora do alcance das defesas antiaéreas inimigas, missões de reabastecimento aéreo evitando que uma rajada de vento destruísse a cargas preciosas como remédios, alimentos ou veículos.

Leonid Savichev
Leonid Savichev

Terminada a Segunda Guerra Mundial , o Ministério de Materiais da URSS expediu uma ordem para unificar os dispositivos de abertura automática para evitar a competição entre empresas e para tentar evitar a possibilidade remota de um dispositivo defeituoso entrar em serviço, Savichev foi incorporado pela primeira vez ao quadro de funcionários da fábrica 2MPZ, trabalhando em conjunto com os irmãos Doronin e os dispositivos PPD-2 e PAS-1 foram aposentados em 1949. Os irmãos Doronin e Savichev ainda desenvolveram juntos outros DAA: PPD-10, KAP-1 e KAP-2, mas todos os DAA citados até o momento eram visando o paraquedismo militar.

O primeiro DAA para o uso no paraquedismo civil foi o KAP-3 também desenvolvido pela URSS na fábrica da 2MPZ. Os DAA para uso civil permitiram que os saltos duplos fossem liberados em diversos países que exigiam mais segurança para prática comercial do esporte.

LINHA DO TEMPO DO DAA

COMO FUNCIONA O DAA

Mecânico

Os primeiros mecânicos possuiam diferentes maneiras de funcionar, mas com o passar do tempo um padrão foi estabelecido, funcionando por variação de pressão que é medida pela unidade central, ou seja, caso a pressão varie rápido demais na altura programada ele dispara, acionando o paraquedas reserva. Sua operação é simples, antes de cada salto, na controladora, é colocado a chave seletora na posição Jump e o regulador de altitude na altura desejada de abertura, simples assim e o DAA estará ativado.

DAA mecânico

Em caso de ativação, uma mola dentro da unidade central é ativada e ela puxa o disparador onde o loop do reserva está passando e libera o paraquedas reserva.

A principal diferença dos DAA mecânico é que eles não iram cortar o loop do reserva, mas sim puxar o mesmo, sendo assim, o DAA mecânico pode ser usado mais de uma vez bastando apenas, puxar o disparador do DAA para a posição original novamente.

Eletrônico

Todos os DAA modernos têm um design semelhante, originado do CYPRES 1, mas com diferenças entre si.

Para funcionar, a unidade central mede a altitude e a pressão do ar – desta forma, pode determinar a altura e a velocidade do paraquedista durante o salto. O DAA é recalibrado automaticamente a cada 30 segundos para registrar as alterações no clima e a pressão atmosférica. Além disso, a unidade central do DAA eletrônico rastreia a velocidade de queda livre e altitude cerca de 8 vezes por segundo, dependendo de qual dispositivo você está usando.

Raio-X do DAA
Raio-X do Vigil

Em seu conjunto há também uma controladora que é um microcomputador com uma tela e um botão responsável pela regulagem de altura de disparo desejada, além de fornecer diversas informações sobre o DAA, por exemplo, a data da próxima revisão e a vida útil do dispositivo.

O disparador eletrônico é uma câmara de combustão, que possui uma pequena carga de explosivo e uma guilhotina chamada “cutter”. Quando o DAA é ativado ele joga uma centelha no explosivo que ao explodir joga uma pressão no cutter que irá cortar o loop do reserva, permitindo que o paraquedas reserva seja liberado.

Raio-X do cutter do DAA
Raio-X do Cutter

Não é possível reutilizar o DAA eletrônico, após o uso é necessário realizar a troca do dispositivo.

UTILIZAÇÃO E MANUTENÇÃO DO DAA

Com o passar do tempo os DAA eletrônicos praticamente tomaram o mercado, devido a seu alto nível de eficiência e personalização. Os DAA mecânicos ainda são usados principalmente no meio militar, mas vamos focar no DAA eletrônico que é usado no paraquedismo civil.

A primeira coisa que você deve fazer antes de usar o DAA é ligá-lo quando for começar um dia de saltos e desligá-lo quando o dia acabar, parece obvio, mas muitos esquecem de ligar.

O DAA deve ser ativado no chão. Você não pode ligá-lo enquanto está subindo com o avião. Para funcionar, ele mede a altura em relação ao solo e a pressão do ar, portanto, se você ligar durante o voo as configurações não iram coincidir com a realidade.

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Você também deve estar ciente sobre o deslocamento de altitude que é aplicado quando a altitude do local de decolagem é diferente da altitude da área de pouso, para isso deverá configurar o offset para corrigir esta diferença. E devido a diferença de altitude você só deve ligar o DAA na área de salto, por exemplo, se você mora na cidade e for saltar na praia, devera ligar o DAA quando chegar na praia, porque a altitude das cidades é diferente e se ligar o DAA em casa ele estará configurado de forma errada. Há não ser que você ira decolar na cidade e pousar na praia, neste caso corrija a diferença como offset, como dito anteioremente.

Os DAA possuem uma vida útil de 15,5 anos, e a manutenção deve ser realizada 5 anos e 10 anos após a data de fabricação. A manutenção é feita pela própria fabricante, portanto, é necessário enviar o DAA para a fabricante que irá fazer todos os testes necessários para garantir que o dispositivo ainda está apto a ser usado.

CONCLUSÃO

Deu para perceber que a invenção do DAA foi crucial para a evolução do paraquedismo e foi inventado para evitar acidentes fatais, sem ele o paraquedismo ficaria menos seguro, mas também temos que ter em mente que o DAA é um dispositivo de segurança para ser usado em casos de urgência, o dever de comandar o paraquedas é sempre do paraquedista.

Se você é aluno ou iniciante no esporte sempre manuseie o DAA com a supervisão de um instrutor qualificado, ele irá te ensinar a como configurar o dispositivo. E você que já é um atleta experiente, lembre sempre de verificar se seu DAA está com a manuntenção em dia.

E para finalizar, deixo aqui um vídeo produzido pela GoFly Paraquedismo sobre DAA.

Blue Skies!


REFERÊNCIAS:

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SOBRE O AUTOR

Diego Rodrigues

Fundador e administrador da SkyPoint Paraquedismo

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