RSL: Separando Fato de Ficção

Provavelmente não há outro equipamento de paraquedismo mais incompreendido do que o Reserve Static Line (RSL). Se você quiser 10 opiniões diferentes sobre por que você deve ou não equipar seu container com um, basta perguntar a 10 paraquedistas diferentes. Infelizmente, a maioria dos paraquedistas escolhe suas posições e toma suas decisões com base em opiniões alheias e cenários imaginários, em vez de fatos. Para separar o fato da ficção e tomar uma decisão verdadeiramente informada sobre a utilização de um RSL, precisamos analisar um pouco da história e dos dados reais.

O RSL

A Linha Estática de Reserva (em tradução livre) é um dispositivo muito simples. Uma manilha de encaixe removível se conecta a um tirante principal (ou ambos os tirantes principais em alguns containers Racer) em uma extremidade de um talabarte, e a outra extremidade se conecta ao cabo do reserva. Os vários fabricantes de RSL utilizam diferentes materiais e designs para realizar esta conexão.

O resultado de cada projeto é o mesmo: uma vez que o paraquedista puxa o punho desconector e os tirantes principais se soltam do harness, o RSL imediatamente puxa o pino do reserva quando o paraquedista se afasta do velame principal. Isso inicia a abertura do velame reserva antes que o paraquedista puxe fisicamente o punho de acionamento do reserva. No entanto, o paraquedista ainda deve estar preparado para puxar ambos os punhos na ordem correta após uma pane do velame principal e considerar o RSL apenas como um dispositivo de backup.

HISTÓRIA

Agora, além dos designs RSL padrão, os paraquedistas podem escolher o dispositivo main-assisted-reserve-deployment (MARD), como o da United Parachute Technologies SkyHook, que usa o velame principal desconectado para extrair a freebag do reserva do contêiner. Os designs desses sistemas produzem aberturas de reserva ainda mais rápidas do que o RSL padrão. Eles cresceram em popularidade na última década, e a maioria dos fabricantes agora oferece algum tipo de dispositivo MARD para seus containers.

No entanto, mesmo com melhorias ao longo dos anos, muitos paraquedistas licenciados ainda evitam o uso de RSL ou MARD, embora os paraquedistas continuem morrendo por não conseguirem acionar seu punho do reserva após a desconexão. O RSL certamente não é uma tecnologia nova. De acordo com “The Parachute Manual” de Dan Poynter, Perry Stevens desenvolveu o Stevens Cutaway System (o que hoje chamamos de RSL) no início dos anos 1960 enquanto trabalhava para a Security Parachute Company.

RSL

A empresa incorporou o sistema em seu container “piggyback” Crossbow, o primeiro sistema de container de velame duplo a ter o reserva localizado acima do principal nas costas do paraquedista, e não mais na barriga como era usado. No entanto, levaria mais 10 anos para que as empresas o adaptassem para os sistemas de containers com o reserva montados na barriga, modelo que os alunos (e a maioria dos paraquedistas) costumavam usar na época.

Os fabricantes desenvolveram esse sistema principalmente para simplificar os procedimentos de emergência para os alunos: uma vez que um paraquedista desconectou seu velame principal, um cordão puxava o pino do reserva na reserva montado na barriga, que lançava um pilotinho  com mola para iniciar a abertura do velame reserva. Este sistema foi amplamente considerado como um dispositivo de segurança de backup apenas para alunos, e muitos paraquedistas licenciados optaram por não usá-los mesmo quando os projetos melhoraram e todos os fabricantes passaram a vender containers com ambos os velames (principal e reserva) alojados na parte traseira. Mas a USPA começou a exigir que os alunos usassem RSL até serem liberados para salto solo. (Uma vez que um aluno é liberado para saltar solo, um instrutor pode dispensar a exigência de um RSL para um salto ou uma série de saltos.)

EMBARAÇOS

É difícil dizer por que os paraquedistas continuam a ter preocupações sobre o uso de RSL e MARD. Embora alguns digam que estão preocupados com os emaranhados do reserva pós desconexão causados ​​pelo RSL, as estatísticas certamente não suportam esse argumento. Olhando para os dados dos EUA de 1999 a 2013:

  • 14 paraquedistas sem RSL morreram depois de desconectar seus velames principais e comandar manualmente seus reservas em baixa altitude.
  • Cinco paraquedistas sem RSL morreram depois de desconectar o velame principal e não acionar o punho do reserva, resultando na não abertura de seus velames reserva.
  • Cinco paraquedistas morreram sem terem seus RSL embaraçados com seus reservas depois de desconectar e comandar o reserva manualmente enquanto caem instáveis em queda livre.
  • Um paraquedista morreu depois de se enrolar com seu velame reserva, mas o relatório não continha informações sobre se o RSL acionou o reserva ou se foi acionado manualmente.

Um RSL em funcionamento teria evitado a grande maioria das 25 fatalidades listadas acima, embora pelo menos três das desconexões estivessem em altitudes tão baixas que mesmo que os paraquedistas comandassem imediatamente seus reservas, eles provavelmente não teriam inflado a tempo de pousos com sobrevivência. O nível de experiência dos 25 paraquedistas variou de 28 saltos a 6.500 saltos.

Durante o mesmo período, quantos paraquedistas que usaram RSL morreram depois de desconectar seus velames principais e se embaraçar com seus reservas? Quatro saltadores, cada um com menos de 20 saltos. E desses quatro, dois se enroscaram em seus velames principais antes de puxarem o punho desconector, o que aumentou muito as chances de eles se enrolarem em seus velames reservas.

Desconexão com RSl

Além disso, houve dois incidentes relacionados a RSL/MARD que são difíceis de categorizar, ambos envolvendo tandems. Em um deles, envolvidos em um salto duplo morreram depois que o instrutor desconectou o paraquedas principal com pane, que ficou preso ao container devido a um RSL mal conectado. O instrutor não desembaraçou o reserva e a dupla pousou com força sob o velame principal em giros.

No outro incidente, participantes de um tandem morreram depois que uma abertura baixa do velame principal levou o DAA a ser ativado e iniciar a abertura do reserva. Logo após o lançamento do pilotinho reserva, um tirante principal se desconectou quando o Collins (que corria entre os dois tirantes como parte do sistema MARD) puxou o cabo de desconexão de um lado enquanto o velame principal permaneceu preso pelo outro tirante. O instrutor tandem soltou o tirante que estava preso em baixa altitude e o tandem atingiu o solo sem ter o reserva inflado.

Os investigadores não foram capazes de determinar a sequência exata de eventos que levaram à liberação do tirante. Olhando mais para trás, as estatísticas sobre emaranhados permanecem consistentes. Um artigo na edição de novembro de 2005 da Parachutist intitulado “RSL: A Second Look” listou dados de 1990-2005. Nesse período de tempo, houve 30 mortes envolvendo paraquedistas desconectando velames principais, mas falhando em comandar os reservas a tempo em comparação com cinco paraquedistas que morreram após emaranhados do reserva após desconexão e abertura do reserva iniciadas por RSL.

PANES COM GIROS

Alguns paraquedistas que estão voando com velames com carga moderada a alta afirmam que tem medo de um RSL complicando a abertura do reserva após uma pane de line twist em giros. No entanto, as estatísticas não suportam esse medo: a USPA não viu documentação de nenhuma fatalidade atribuída a uma abertura imediata do reserva após uma desconexão de um principal girando rapidamente.

De fato, a desconexão de um velame principal girando rapidamente seguido pela abertura imediata do reserva por meio de um sistema RSL ou MARD prova funcionar bem, mesmo sob velames com alta carga alar. A maioria resulta em abertura de reserva rápidas e limpas. E embora alguns paraquedistas tenham relatado ter line twist em seus velames reserva, os reservas voaram de forma estável, e os paraquedistas foram capazes de tirar as torções e pousar sem intercorrências.

Paraquedistas sob velames com giros podem realmente ter uma necessidade maior de um RSL. Em panes com giro em alta velocidade, os paraquedistas geralmente descobrem que seus harness estão muito distorcidos pelas forças causadas pela rotação rápida ao redor do velame. Os punhos de emergência não estão nem perto de onde estavam quando os paraquedistas usavam os equipamentos no chão.

Reserva com twist

E mesmo que a maioria, se não todos, os paraquedistas tenham sido ensinados a olhar para seus punhos de desconexão e reserva antes de pegá-los e puxá-los, alguns descobriram que durante giros violentos, os punhos eram difíceis de ver e localizar. Mais de uma vez, testemunhas observaram paraquedistas procurando por seu punho do reserva durante os segundos finais da queda livre.

Em “RSL: A Second Look”, Derek Thomas, então co-proprietário da Sun Path, e Bill Booth, presidente da United Parachute Technologies, listaram várias razões pelas quais os paraquedistas – mesmo aqueles com carga alar média ou alta em seus velames – devem considerar o uso de um RSL ou MARD:

  • As panes com giro violento retiram rapidamente o sangue do cérebro, afetando a coordenação e a capacidade de raciocínio, bem como abrandando os tempos de reação.
  • Os velames giratórios perdem altitude rapidamente, geralmente 100 pés ou mais por giro em cargas alares moderadas e várias centenas de pés por giro em cargas alares mais altas.
  • Em média, um paraquedista leva de seis a oito segundos desde o momento em que decide iniciar uma desconexão até o momento em que realmente desconecta o velame principal, perdendo uma grande quantidade de altitude.
  • Saltos de teste mostraram que uma vez que um paraquedista libera seu velame principal, leva uma média de seis segundos – ou aproximadamente 1.100 pés de altitude – para recuperar uma posição corporal estável, de barriga (e isso é quando o paraquedista de teste foi preparado para a desconexão antes de fazer o salto).
  • Localizar os punhos de desconexão e reserva enquanto gira rapidamente é difícil durante uma emergência real e quase impossível de simular no solo para praticar.

OUTRAS CONSIDERAÇÕES

O RSL é uma boa ideia para todos os paraquedistas? Não necessariamente. Para o trabalho relativo de velame (TRV), se um paraquedista ficar enrolado ou emaranhado, a prática padrão é desconectar e cair uma curta distância para se livrar do principal e dos outros antes de comandar o reserva. Para paraquedistas que não estão participando intencionalmente do TRV, um RSL também pode adicionar um passo extra (desconectar o RSL) a ser considerado no caso de uma colisão inadvertida de velame.

Alguns cameramen também se preocupam com emaranhados com seus equipamentos de câmera se seus reservas forem abertos por meio de um RSL. No entanto, as câmeras ficaram menores e os designs dos capacetes melhoraram, então isso é muito menos problemático do que era antes.

Desde 1999, quando começou a coletar dados, a USPA não documentou uma única fatalidade devido a um emaranhamento de câmera com o reserva iniciado por RSL ou MARD, embora tenha visto muitos casos documentados de aberturas de reserva iniciadas por RSL e MARD que ocorreram sem emaranhamento mesmo que os paraquedistas usassem câmeras montadas no capacete.

Alguns paraquedistas se preocupam que, se o tirante equipado com o RSL estourar durante a abertura, ele poderá puxar o cabo reserva enquanto o principal ainda estiver preso ao harness pelo tirante oposto e aumentar a chance de um emaranhamento do reserva com o principal. No entanto, o projeto e a fabricação dos tirantes melhoraram a ponto de as falhas serem quase desconhecidas.

Reserve Static Line

Componentes gastos ou mal montados causaram os poucos incidentes recentes com falha do sistema de tirante, nenhum dos quais resultou em fatalidade. E alguns sistemas (incluindo todos os MARD) liberam ambos os tirantes se um deles estourar. A última vez que uma fatalidade ocorreu de um emaranhamento após a falha do tirante foi em 1997 (um salto tandem no qual o instrutor morreu e o aluno ficou ferido após pousar com força sob os velames principais e reserva embaraçados).

Alguns paraquedistas pensam erroneamente que o DAA é um substituto adequado para um RSL. Embora os DAA tenham salvado alguns paraquedistas rearmando e cortando loops de fechamento do reserva depois que os paraquedistas falham em desconectar o principal, eles não são projetados para esta finalidade.

Para que um DAA seja rearmado e ativado após uma desconexão, o paraquedista precisa estar alto o suficiente para acelerar até pelo menos 78 mph após desconectar o velame principal. E ainda precisa haver altitude suficiente para permitir que o reserva seja aberto e inflado totalmente. Os RSLs simplesmente fornecem uma função diferente e podem ser um valioso dispositivo de segurança, quer você salte ou não com um DAA. O importante é ter certeza de que você tem uma compreensão completa do seu equipamento para que possa tomar uma decisão informada sobre suas limitações e uso.

O RSL trabalha silenciosamente em segundo plano há décadas, iniciando inúmeras aberturas de reserva bem-sucedidas. Se você deve vai decidir usar ou não, certifique-se de tomar uma decisão fundamentada com base em fatos e dados.

CONCLUSÃO

Este artigo não é para defender e obrigar você a usar o RSL, é apenas para mostrar que as histórias e opiniões sobre o RSL muitas das vezes não passa de mitos sem fundamento em dados. Mas lembre-se, você é responsável pelo seu salto, analise bem para tomar uma decisão se vai ou não usar o RSL e em caso de dúvidas, procure sempre um instrutor qualificado.

Esteja sempre preparado! Blue Skies!


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SOBRE O AUTOR

Diego Rodrigues

Fundador e administrador da SkyPoint Paraquedismo

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